Rebeca, natural da Venezuela, artesã em Boa Vista

Artesanato

Rebeca

Durante uma conversa corriqueira com uma voluntária do Abrigo Jardim Floresta, em Boa Vista, a venezuelana Rebeca contou que estava no Brasil de forma “ilegal”, pois sua documentação como refugiada ainda não estava pronta.

“Nadie es ilegal”, respondeu a funcionária do local. Nascia a inspiração para o empreendimento liderado pela refugiada, que vive no Brasil desde 2019. Em sua loja online, Rebeca vende bolsas, panos e outros itens, todos estampados com a frase, que significa, em português, “ninguém é ilegal”.

O trabalho de Rebeca, que em seu país natal trabalhava para o governo na indústria petroleira, começou a ser desenvolvido dentro do abrigo, o primeiro lugar onde viveu no Brasil. Ela conta que fazia parte do Círculo de Mulheres Tecedoras da instituição, e começou a trabalhar em um projeto que produzia acessórios para móveis. Com a sobra da lona, ela resolveu costurar uma bolsa, e personalizou o item pintando suas iniciais.

“Eu já havia ganhado vários concursos de pintura na Venezuela, e trazia o hábito comigo desde pequena”, conta a artesã, que também ensinou o ofício a outras mulheres que viviam no abrigo e envolveu várias delas no projeto. A aceitação dos produtos pelo público surpreendeu Rebeca: em um evento realizado na cidade no ano de 2019, o Boa Vista Inspira, 24 bolsas foram vendidas pelo grupo em um único final de semana. O lucro, conta ela, foi divido igualmente entre todas as participantes do projeto.

As ecobags produzidas por Rebeca são vendidas, desde o início de sua jornada como empreendedora, pelo valor de R$ 60. Ela conta que não reajustou o preço, mesmo com a variação do valor da matéria prima.

A pandemia do Covid-19 afetou os negócios e fez com que os eventos onde ela costumava vender seus produtos fossem cancelados. “As pessoas estão sem dinheiro, priorizam comprar comida e outras coisas mais necessárias”, explica a empreendedora, que diante da nova situação, passou a comercializar os produtos em seu Instagram.

A maior parte das mulheres que integravam o Círculo de Mulheres Tecedoras, atualmente mora em outros estados brasileiros, por meio da estratégia de interiorização do Governo Federal. Além de Rebeca, hoje mais quatro mulheres produzem as bolsas, e dividem igualmente o lucro das peças vendidas. “Nós oferecemos uma experiência totalmente personalizada, a pessoa encomenda a peça e envia o desenho que quer estampado”, explica ela, sobre as ecobags que podem ser despachadas para todo o Brasil.

Apesar das dificuldades impostas pela pandemia – no ano de 2021 apenas quatro bolsas foram vendidas – ela deseja conseguir um lugar fixo onde possa estabelecer a produção de bolsas e outros itens artesanais. Além disso, ela conta que deseja ajudar mulheres em situação de rua. “Não se trata apenas de um projeto de bolsas, mas algo que mexe com nossa saúde mental. O projeto pode não alcançar todas as pessoas, mas já é algo”, conta a talentosa e determinada empreendedora.

(Texto incluído na plataforma em Junho de 2021)